Marcos Guerra avalia 2013 como um ano desafiador para a indústria capixaba

Um otimismo moderado é o que se deduz das declarações do presidente do Sistema Findes, Marcos Guerra, sobre o cenário esperado para a indústria em 2013.

Na lista dos problemas: a crise internacional, a falta de investimentos federais em infraestrutura no Estado e a burocracia, que onera e retarda os negócios. Já no rol das conquistas, o presidente da Findes destaca que, mesmo com a crise internacional ainda provocando seus efeitos, empregos devem ser mantidos, a produção industrial deve voltar ao patamar positivo (com crescimento estimado em torno de 3,5% este ano) e a qualificação e formação profissional estão em alta, com investimentos de quase R$ 100 milhões pelo Sistema Findes.

 

Confira a seguir a entrevista completa, primeira de uma série que começa hoje e irá ao ar toda terça-feira, trazendo a cada semana a visão de um líder empresarial sobre o presente e o futuro da economia capixaba.

 

FV: A produção industrial acusou queda significativa em 2012, no Brasil e no Espírito Santo, onde quase bateu em -7% no acumulado do ano. Aqui, um dos segmentos mais atingidos é a indústria de transformação. Quais as causas desse movimento e como revertê-lo?

 

Marcos Guerra: É preciso lembrar que o Espírito Santo tem um papel importante na atuação da indústria nacional. Em 2010, alcançamos o melhor desempenho produtivo do Brasil e, no ano seguinte, ocupamos a segunda colocação. Avaliação de desempenho é um tema complexo, pois vários fatores influenciam no comportamento da indústria capixaba. Infelizmente, nossa produção física industrial é altamente dependente das grandes empresas que atuam com a atividade de comércio exterior, e com as quedas nas aquisições de commodities, consequentemente reduziram-se as demandas e, com isso, sentimos os impactos em efeito cascata. Diversificar os segmentos de atuação e ampliar o foco no mercado nacional são ações fundamentais que estamos desempenhando para dar mais estabilidade à indústria capixaba.

 

FV: Além da produção em queda, a ociosidade e os estoques aumentaram junto com a folha salarial, enquanto a geração de emprego diminuiu. Há perspectiva de demissões na indústria capixaba em 2013?

 

Marcos Guerra: O Idéies (Instituto de Desenvolvimento Educacional e Industrial do Espírito Santo), entidade ligada à Findes, está levantando os impactos, mas ainda é cedo para falar sobre o assunto. Podemos afirmar, no entanto, que mesmo com a queda da produção as empresas optaram pela manutenção dos funcionários, o que demonstra perspectivas de recuperação em curto e médio prazo. Estamos passando por um período desafiador, mas também de grandes oportunidades, no qual, de forma planejada e organizada, podemos esperar um ano produtivo, que vai se refletir no desenvolvimento socioeconômico do Estado.

 

FV: A redução nas tarifas de energia elétrica é uma reivindicação antiga da Findes, agora tornada realidade. Qual tem sido a percepção da entidade sobre a eficácia da medida? Já é possível mensurar os resultados, na prática?

 

Marcos Guerra: Assim como a desoneração tributária na folha de pagamento, crédito à exportação e redução do IPI, a redução do valor da energia elétrica foi uma conquista importante que conseguimos, porém ainda é cedo para medir os resultados dessa medida recém anunciada pelo Governo Federal. Em nossos estudos, identificamos que a base de cálculo é altamente complexa e o percentual de desconto não é sobre o valor final da conta de energia. Cada caso é um caso e tudo depende do contrato de cada empresa junto aos fornecedores energéticos. Mas, sem duvida, isso irá e traduzir em ganho de competitividade e, como conseqüência, todos se beneficiam, com produtos e serviços a preços melhores.

 

FV: Outro pleito antigo da Findes diz respeito a melhorias indispensáveis na infraestrutura de portos, aeroportos, ferrovias e rodovias, que oneram os custos, afetam a competitividade das indústrias capixabas e retardam o desenvolvimento estadual. A seu ver, os investimentos já anunciados pelo Governo Federal são suficientes para resolver a questão? Se não, como superar essas dificuldades?

 

Marcos Guerra: Se saírem do papel, todos os anúncios irão impulsionar de forma significativa a logística de nosso Estado, pois temos projetos já anunciados em todas as áreas. Podemos citar como exemplo a criação de linhas ferroviárias e modernização de estradas federais, portos e aeroportos. A concretização desses projetos daria mais competitividade às nossas empresas. Infelizmente, há muitos anos o Estado não recebe do Governo Federal investimentos em infraestrutura básica e, com isso, estamos perdendo grandes oportunidades, principalmente na distribuição de nossa produção, além é claro, do fato de que o Estado poderia se beneficiar das exportações de estados vizinhos e região central do Brasil. Mas, infelizmente, falta vontade política federal.

 

FV: A indústria tem reclamado constantemente das dificuldades para obtenção de licenças ambientais no Espírito Santo, onde há centenas de processos à espera de definição nos órgãos responsáveis. Essa situação evoluiu? Como avalia a questão hoje?

 

Marcos Guerra: Acreditamos no diálogo entre as instituições. Todos sabem da complexidade na liberação de licenças ambientais. Não deveria ser assim, tirar uma licença ambiental no Espírito Santo é um desafio, e dispendioso. O Sistema Findes atua cada vez mais próximo e alinhado aos órgãos responsáveis para melhor atender às demandas da indústria capixaba, por isso, inclusive, sugerimos que a fiscalização e concessões de licenças ambientais deveriam ser feitas nos próprios municípios –  um desafio que deveria ser encarado como fundamental aos ganhos de competitividade.

 

FV: Nosso Estado tem uma história de exploração intensiva dos recursos naturais, e muitos receiam, além da degradação, o esgotamento, por exemplo, de mananciais e recursos hídricos e florestais. Como conciliar as necessidades de preservação com a expectativa de implantação de 150 novos projetos anunciados, em sua maioria industriais, avaliados em mais de R$ 100 bilhões?

 

Marcos Guerra: A proposta da Federação das Indústrias é o desenvolvimento sustentável. Atualmente, existem estudos detalhados que apontam desde a viabilização até os possíveis impactos da instalação de um empreendimento. Esses mesmos estudos podem ser utilizados como instrumentos norteadores para identificar quais ações podem e devem ser tomadas para minimizar e compensar impactos. Acreditamos que a interiorização industrial é o caminho do desenvolvimento do Estado e de mais oportunidade e qualidade de vida para população.

 

FV: A próxima ameaça no horizonte capixaba, após a perda do Fundap e a provável mudança nos critérios de distribuição dos royalties do petróleo, é a pretendida unificação do ICMS em 4%. De que forma, se aprovada, essa medida afetará a indústria capixaba?

 

Marcos Guerra: A luta sobre a distribuição dos royalties ainda não acabou. Sabemos que tivemos episódios altamente desfavoráveis, porém não podemos esquecer que a presidente Dilma vetou o projeto, e isso simbolizou apoio aos Estados produtores. Estamos acreditando e lutando, juntamente com os diversos segmentos da sociedade capixaba, até o último minuto. Já sobre a proposta do Governo Federal em unificar o ICMS não será diferente. Estamos articulando ações com o governador Renato Casagrande e a bancada federal para ganharmos tempo para melhor discutir o tema, pois será mais um duro golpe para a indústria capixaba.

 

FV: O senhor tem defendido que o Espírito Santo trabalhe no sentido de reduzir sua dependência das commodities e atrair indústrias com perfil mais tecnológico, fabricantes de produtos com maior valor agregado. Por que isso é importante e como a Findes pode contribuir para esse processo?

 

Marcos Guerra: Defendemos, atuamos e já alcançamos resultados que demonstram que esse é o caminho. A vinda de novas indústrias que fazem uso de tecnologia – como, por exemplo, a Weg em Linhares, a Marcopolo em São Mateus, e o Estaleiro Jurong, em Aracruz – agrega maior valor aos produtos, atrai novas empresas e, com isso, gera mais oportunidades para as indústrias capixabas. O Sistema Findes tem atuado desde a prospecção dos novos empreendimentos até a articulação junto ao poder público. Nossa missão também é contribuir na diversificação do perfil da nossa produção para a consolidação de um novo ciclo de desenvolvimento e com ações de apoio à sustentabilidade da indústria capixaba.

 

FV: Muito se fala na insuficiência de mão de obra qualificada para todos os setores da economia, principalmente para a indústria. Como avalia essa questão em relação ao Espírito Santo? Se existe “apagão”, como resolver?

 

Marcos Guerra: Temos um déficit alto, porém nunca se qualificou tanta mão de obra como estamos fazendo nos últimos anos. O Plano de Investimentos do Sistema Findes é de mais de 100 milhões até 2015, e desse total 82,07% serão voltados para a educação escolar e profissional. Este ano no Senai nossa meta é alcançarmos 122.511 matrículas, ou seja,  20% a mais que no ano passado. Além disso, ações articuladas com os governos federal, estadual e municipal geram expectativa de avanços significativos, pois a carteira de investimentos prevista para o Espírito Santo é muito alta. Para atendermos essas demandas com maior agilidade, estaremos atuando com unidades móveis, escolas sobre rodas e agências de treinamento – essas, uma novidade no Estado.

 

FV: O que ainda falta para que o Espírito Santo crie uma ambiência mais favorável aos negócios e necessidades da indústria?

 

Marcos Guerra: O desafio é diversificar a nossa indústria com maior valor agregado e torná-la ainda mais competitiva. Estamos enfrentando um conjunto histórico de dificuldades, sendo a falta de investimentos federal em infraestrutura o maior problema. Burocracia e dificuldades nas aquisições de licenças e alvarás de funcionamento também encarecem os investimentos e dificultam o desenvolvimento. Estamos animados para os próximos anos, pois alcançamos significativos avanços. Um deles foi junto ao governador Renato Casagrande, na construção de um conjunto de medidas para fomentar o desenvolvimento industrial. São renovações e avanços em contratos de competitividade para melhorar o desempenho da nossa indústria. Além disso, estamos otimistas com a consolidação de importantes projetos, como a conclusão da Oitava Usina de Pelotização da Vale e a implantação da Quarta Usina de Pelotização da Samarco. Também vale como injeção de boas expectativas a vinda de novas indústrias, ligadas às cadeias petróleo-gás, automobilística, móveis, estaleiro, portos e várias outras, de diferentes segmentos, que atuam com bens de maior valor agregado e que abrirão novas possibilidades de negócios e facilitarão a interiorização da atividade industrial.

 

O entrevistado

Marcos Guerra iniciou sua atividade industrial aos 19 anos, no ramo do vestuário. Em sua trajetória associativa, foi fundador e presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário de Colatina. Na Findes desempenhou diversos cargos de direção importantes: foi presidente do Conselho de Assuntos Legislativos (Coal) e do Conselho de Desenvolvimento Regional (Cinder), e vice-presidente do Sistema no período de 2003 a 2008. Foi Senador suplente no período de 2003 a 2011, tendo assumido o mandato em duas oportunidades. Atualmente é conselheiro da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), vice-presidente do Conselho de Assuntos Legislativos da CNI, vice-presidente do Conselho Deliberativo do SEBRAE e presidente do Sistema Findes (CINDES, SESI, SENAI, IEL, IDEIES e IRI).

 

Fonte: Portal Folha Vitória

Foto: Divulgação

 

Informações à Imprensa

Paulo Dubberstein Main
Assessor de Comunicação
paulo@assedic.com.br
(27) 9650.1589

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