Efeitos da crise na micro ou pequena empresa

Pedidos de falência é maior entre a categoria, que representa a quase totalidade dos negócios formais do Brasil
Por Thiago Lourenço, Revista ES Brasil.
 
Nos últimos meses, a empresária Camila Fernandes tem percebido algumas mudanças no comportamento dos clientes de sua loja de roupas, a “Ei, Juju!”. “As pessoas estão comprando menos peças. Também tive que ampliar os prazos de parcelamento para evitar perder vendas”, comenta. A queda de 4% no consumo das famílias registrada em 2015, apontada pelo Instituto Brasileiro de Geogra a e Estatística (IBGE) como o pior resultado desde 1996, re flete uma crise que, apesar de não fazer distinção de seus alvos, exige um jogo de cintura com certas particularidades para a sobrevivência dos empreendimentos de estrutura mais simples.
 
Embora nem toda atividade econômica esteja sofrendo com a recessão, de modo geral a categoria de pequenas e médias empresas é bastante afetada pela turbulência, por representar a quase totalidade dos negócios brasileiros e capixabas, 95% e 99%, respectivamente, de acordo com o Sebrae-ES, instituição que oferece apoio e suporte a essas organizações. Em 2015, o crescimento do número de rmas que pedem falência foi maior entre aquelas de menor porte: 13,3%, de acordo com indicador da Serasa Experian.
 
O aumento dos juros, que encarece e deixa o crédito escasso, a inadimplência e a elevação da in ação e da taxa de câmbio estão entre os fatores que mais ocasionam efeitos negativos, avalia o superintendente do Sebrae-ES, José Eugênio Vieira. “Como o mercado está retraído, há di ficuldades de repassar esses custos aos preços. Com isso, o pequeno acaba tendo redução de margem de lucro e, em alguns casos, até prejuízo”, destaca.
 
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Para o presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), Eduardo Araújo, o revés se faz presente tanto na redução das vendas quanto na ampliação do custo de produção, devido à escalada da inflação nos últimos anos. “O impacto também é grande porque ninguém esperava uma crise dessa proporção. Muitos empreendedores não contavam com disponibilidade financeira su ficiente para suportar retração de vendas e manter o pagamento das despesas fi xas do negócio”, ressalta.
 
A dependência do mercado interno é outro componente que agrava a situação das micro e pequenas empresas (MPEs), observa o coordenador-geral dos Conselhos Temáticos e das Câmaras Setoriais da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Gibson Reggiani. “Atuar no mercado externo requer um investimento que os pequenos empreendedores às vezes não possuem condições de fazer, além de toda a complicação burocrática. No caso das grandes empresas, a retração interna pode ser equilibrada com a diversifi cação no exterior e também com apoio do câmbio, uma vez que o dólar valorizado pode compensar perdas no faturamento”, acrescenta.
 
O Governo Federal tem estudado medidas para ampliar o crédito para as pequenas empresas, como a liberação de mais recursos do compulsório e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para esse segmento. Outra medida em discussão foi abordada pela própria presidente Dilma Rousse , durante a abertura do ano legislativo do Congresso, em Brasília: a alta do teto do Simples Nacional. Os atuais valores (R$ 60 mil/ano para microempreendedores individuais MEIs; R$ 360 mil/ano para microempresas; e R$ 3,6 milhões para pequenos negócios) não são revistos desde 2012.
 
Pode parecer contraditório falar em expandir o limite máximo de faturamento em meio a um cenário de queda nas receitas, mas Reggiani reforça a importância da discussão.
“Além de ser elevado, o custo para se produzir no Brasil é ainda mais oneroso para os micro e pequenos empresários, que às vezes não possuem condições de arcar com o pessoal necessário para lidar com toda a burocracia. Falar em ampliação do teto do Simples, mesmo que não resolva o problema, é uma ação importante porque atua no sentido de desburocratizar as atividades de um universo maior de empresas”, defende.
 
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Na avaliação do coordenador-executivo do Programa Integrado de Desenvolvimento e Quali ficação de Fornecedores (Prodfor), Luciano Raizer Moura, as MPEs capixabas experimentaram “avanços nos últimos os anos”, principalmente em virtude de projetos com esse foco, que aprimoram a organização das grandes indústrias. “Entre as certificadas pelo Prodfor, mais de 80% são empresas de menor porte. Seguramente, as que investem na padronização de seus processos e em gestão da qualidade enfrentam melhor este período de crise, até pelo fato de entregarem melhor seus produtos e serviços.”
 
APOSTA NA CRIATIVIDADE
 
Foi no final de 2014, quando a crise econômica ainda começava a ganhar espaço nos noticiários, que a advogada Vanessa Iezzi decidiu abrir a Gip.Me, empreendimento voltado à comercialização de acessórios e à revenda de produtos da área de cosméticos e beleza. Com a disparada de 50% do dólar em menos de nove meses, cuja cotação passou de R$ 2,65 no último dia de 2014 e superou a barreira dos R$ 4 pela primeira vez na história em 22 de setembro de 2015, ela decidiu mirar apenas a fabricação de acessórios.
 
Desde essa correção no rumo, o negócio passou a crescer, apostando na diversifi cação e na criatividade. “Percebi que o câmbio não estava colaborando, enquanto a margem de lucro dos produtos de fabricação própria cava cada vez maior”, lembra. Em meio a um cenário nada animador, em que 70% das MPEs não pretendem investir, segundo pesquisa divulgada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), a criatividade e a inovação são o caminho. “Momentos de crise também apontam para a oportunidade de se reinventar e buscar uma gestão mais e suficiente, otimizando os resultados. É preciso procurar ter um olhar diferente, mais criativo, sobre o negócio. Isso pode despertar novas possibilidades e até ocasionar ganhos de mercado. Mesmo enfrentando um cenário econômico difícil, eles têm buscado superar as di ficuldades, especialmente por meio da capacitação”, orienta José Eugênio Vieira.
 
Foi justamente essa a receita seguida por Vanessa Iezzi, que participou do Empretec, iniciativa do próprio Sebrae-ES para capacitação das organizações. “É preciso estar sempre antenada com as tendências, com o que os consumidores querem, e fazer as informações sobre a empresa chegarem até eles. Divulgamos nossos produtos entre blogueiras e nas redes sociais, utilizando-as inclusive como canal de vendas. Assim, já vendemos para sete estados, e as perspectivas apontam para nosso crescimento”, comemora ela.
 
Mesmo com a crise, o brasileiro nunca buscou tanto ser seu próprio patrão. Na última edição da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), ranking mundial que monitora o empreendedorismo, realizada entre setembro e novembro de 2015, o país alcançou seu maior resultado em 14 anos. Entre a população adulta (18 a 64 anos), dois em cada 10 brasileiros já têm um negócio ou estão executando alguma ação para isso. Entretanto, o levantamento aponta que houve uma queda no empreendedorismo por oportunidade, de 71% para 56%, e uma alta no empreendedorismo por necessidade, de 29% para 44%, possivelmente em função da crise e do desemprego.
 
“Da mesma forma que muitas empresas estão fechando as portas, vários novos negócios vêm sendo criados. Os empreendedores de sucesso são aqueles que conseguem entender as tendências econômicas e se programar para esses novos tempos. É um processo de ‘destruição criativa’ que só garante a sobrevivência daqueles que conseguem inovar, benefi ciando-se de novas tecnologias e ampliando a produtividade. Há sempre oportunidades que podem ser aproveitadas. A crise econômica não irá durar para sempre”, fi naliza Eduardo Araújo.

 
 
 
Assessoria de Comunicação da Assedic
Paulo Dubberstein Main
comunicacao@assedic.com.br
(27) 9 9655.7297

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